quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Resveratrol

Resveratrol


Artigo original: Désirée Lie, MD, MSEd


Apresentação do Caso

Sr. X, um gerente de banco de 45 anos, possui um histórico familiar de doenças cardiovasculares e Alzheimer. Sua mãe de 69 anos foi recentemente diagnosticada para doença de Alzheimer e seu pai morreu aos 55 anos devido a um infarto do miocárdio. Além disso, seu irmão de 48 anos foi recentemente diagnosticado para cancer coloretal. Sr. X está ansioso com relação aos seus riscos para essas doenças, embora ele tenha índice de massa corporal e pressão arterial normais, comparece a consulta médica anual, não fuma, adota uma dieta saudável para o coração e pratica de 120 a 150 minutos de exercícios aeróbios de intensidade moderada uma vez por semana. Ele bebe de 1 a 2 copos de vinho diariamente ao jantar. Planeja fazer uma colonoscopia este ano. Ainda assim, ele gostaria de fazer mais a fim de reduzir seus riscos de doença. Agora, ele acredita que o resveratrol possui propriedades antienvelhecimento que protegem contra a doença de Alzheimer, doenças cardiovasculares e câncer. Ele gostaria de saber onde comprar este suplemento e qual a dose a tomar para efeito de proteção máxima a fim de neutralizar os riscos a sua saúde.


Resveratrol - Benefícios potenciais

O resveratrol é uma fitoalexina e um polifenólico antioxidante não flavonóideo encontrado em grandes quantidades na tradicional erva medicinal chinesa e japonesa Polygonum cuspidatum. Ele também ocorre naturalmente nos extratos da pele da uva, vinho tinto, suco de uva roxa, amendoim, amoras e mirtilos. O resveratrol é sintetizado em células vegetais, sempre que o estresse (particularmente a invasão por fungos) ou o esgotamento dos nutrientes ocorre. Trans-resveratrol é a forma ativa.

Os benefícios à saúde do resveratrol tornou-se de interesse quando foi observado que o consumo de vinho na França atribuía propriedades potencialmente cardioprotetoras. O paradoxo francês, como veio a ser conhecido, derivado da observação de que, apesar de uma dieta rica em gorduras saturadas, a mortalidade por doenças cardiovasculares entre os franceses, que consomem grandes quantidades de vinho, paradoxalmente, permanece baixa, em comparação com pessoas de outros países onde há uma alta similar do consumo de gorduras saturadas. Um estudo de 1997 relatando sobre a atividade potencial anticancerígena do trans-resveratrol impulsionou o interesse sobre o resveratrol como suplemento nutricional. Estudos posteriores (principalmente realizados em culturas de células, na mosca da fruta, nematóides, peixes e modelos animais vertebrados) apoiou a sua atividade anticancerígena e sugeriu que o trans-resveratrol concede mais benefícios em termos de antiagregantes plaquetários, antioxidante, antienvelhecimento, antiobesidade e propriedades imunogênicas. Nestes estudos, a administração de resveratrol reduziu a inflamação na cartilagem animal, levou a inibição do colesterol nas bactérias, suprimiu a proliferação de células T, promovendo apoptose em linhagens de células tumorais, e resultou na expectativa de vida prolongada em mosca da fruta, verme nematóide, e modelos de cultura em levedura. Estas ações têm alimentado as especulações sobre a sua utilidade para melhorar os resultados cardiovasculares e diabetes, para promover a quimioprofilaxia contra o câncer, ajudar na perda de peso, prevenir a doença de Alzheimer e prolongar a vida em humanos.

Uma formulação dermatológica de resveratrol que tem propriedades antienvelhecimento potencial foi relatada recentemente, e mais aplicações do resveratrol é provável que surjam. No entanto, o entusiasmo popular gerado pelos resultados preliminares do benefício está longe das evidências clínicas quanto a eficácia humana do resveratrol.


Potenciais mecanismos de ação

As crescentes evidências dos estudos moleculares, celulares e em animais, sugerem vários potenciais mecanismos de ação que apoiam as propriedades do resveratrol na promoção da saúde. No entanto, alguns dados são conflitantes. Por exemplo, em estudos in vitro do resveratrol descobriu tanto um aumento quanto uma diminuição na função imunológica em células humanas. Embora o resveratrol possa retardar o desenvolvimento dos vasos sanguíneos, também tem mostrado retardar a cicatrização de feridas.

Ações Cardioprotetoras. As propriedades potenciais cardioprotetoras do resveratrol estão ligadas a vários mecanismos. Em modelos animais de isquemia e reperfusão, o resveratrol reduziu a peroxidação lipídica, os danos à órgãos e melhorou a isquemia miocárdica. In vitro, o resveratrol tem se mostrado ser mais potente como um agente anti-inflamatório que a aspirina e o ibuprofeno, para inibir a produção de óxido nítrico em macrófagos ativados, para melhorar a função mitocondrial e para reduzir as interleucinas-1 (IL-1), IL - 8, e do fator estimulante de colônias dos granulócitos macrófagos.

Ações imunológica, antiagregante plaquetário, anti-inflamatório e anticâncer. O resveratrol pode suprimir a proliferação de células T, que contribuem para o potencial de propriedades imunogênicas. Ele inibe o crescimento de tumores de ovário, cólon, câncer de mama; linhagens de células leucêmicas, e impede que as células do câncer de fígado invadam os tecidos locais, que são mecanismos potenciais para reduzir o risco de câncer. As propriedades antiplaquetas são provavelmente o resultado da capacidade demonstrada do resveratrol em diminuir a agregação plaquetária e provocar a dilatação dos vasos sanguíneos. Em modelos animais, o resveratrol foi descoberto impedir o peptídeo beta-amilóide relacionado com as reduções de glutationa, proteger contra os danos oxidativos causados pelo peptídeo, e reduzir a formação da placa no cérebro, que podem servir como mecanismos para conferir proteção contra a doença de Alzheimer.

Ações antievelhecimento. Muito interesse tem evoluído em torno do potencial do resveratrol para melhorar o cérebro e a saúde cardiovascular - dando origem a alegações prematuras de que sua eficácia como um agente 'antienvelhecimento' seria uma panacéia. Algumas das observações do efeito protetor sobre a saúde do cérebro veio da associação entre o consumo de vinho tinto e a menor incidência de demência e doença de Alzheimer, sugerindo que o resveratrol confere efeitos benéficos contra a neurodegeneração. Em vários estudos, o resveratrol foi encontrado imitar o efeito da restrição calórica através da ativação de sirtuinas, aumentar a longevidade em ratos e invertebrados, melhorar a função mitocondrial, aumentar a sensibilidade à insulina e controlar a atividade dos fatores de transcrição. A ativação da SIRT1, um ortólogo dos mamíferos, pode contribuir para as propriedades anti-amiloidogênicas do resveratrol como um mecanismo potencial para a longevidade em humanos. O clearence de peptídeos amilóides cerebral pelo resveratrol in vitro tem sido apontado como um mecanismo para melhorar a função cognitiva em seres humanos. Mecanismos similares de ação constituem a base do seu papel na prevenção de doenças relacionadas com a idade.

Estas ações, encontradas em linhas de células e em modelos animais, oferece uma promissora prova de que o resveratrol possui vasto benefícios à saúde. No entanto, os ensaios clínicos de alta qualidade a longo prazo em humanos, destinados a ter pertinentes resultados clínicos, estão sendo aguardados a fim de verificar essas afirmações. Novos ensaios clínicos para o resveratrol, que estão atualmente disponíveis para os pacientes envolvidos, irão analisar a utilidade do resveratrol em condições que variam da prevenção do câncer em adultos saudáveis ao tratamento do câncer coloretal e linfoma.


Concentração, Formulação, Dose e Toxicidade

Concentração em diversos produtos. A concentração do resveratrol em alimentos e bebidas varia de produto para produto. Em termos de peso, o amendoim têm metade da quantidade de resveratrol encontrada no vinho tinto. Concentrações de resveratrol foram encontradas serem semelhante na uva-do-monte e no suco de uva. A concentração do resveratrol na concentração desses frutos é muito menor do que em uvas vermelhas e o cozimento pode reduzir ainda mais a concentração em 50%.

O conteúdo do trans-resveratrol no vinho é dependente do tipo de uva, clima e práticas de processamento. Vinhos tintos, em particular, pinot noir (5,13 mg / L), contêm as maiores concentrações e vinhos brancos as mais baixos (1% -5 % da contida nos vinhos tintos). Além disso, vinhos produzidos com uvas cultivadas no frio e em climas úmidos apresentam maior concentração de resveratrol do que as cultivadas em climas quentes e seco. Em geral, 4 oz (118 g - 1 porção) de vinho tinto fornecem aproximadamente 320 mcg de resveratrol (0,2-5,8 mg / L).

Formulação e dose. Resveratrol já foi sintetizado e é vendido como suplemento em forma de cápsulas e comprimidos. Os produtos são principalmente derivados da Polygonum capitatum japonesa, que, na sua forma de raiz seca, contém até 187 mg / kg de resveratrol. Os suplementos são vendidos em farmácias e lojas de suplemento nutricional em doses variando de 15 a 600 mg por cápsula ou comprimido, e websites recomendam altas e baixas doses e fazem afirmações sobre a "alta potência" das formulações, ainda que não exista uma dose recomendada baseada em evidências. Em humanos, a biodisponibilidade oral de resveratrol ingerido como pílulas tem sido questionada, pois menos de 5% do produto está disponível no plasma do sangue após a ingestão e a rápida passagem pelo intestino e pelo fígado. Mesmo após a ingestão de vinho tinto , o nível sérico de resveratrol não demonstrou ser suficiente para explicar as ações fisiológicas vistas em modelos animais e células. Tais resultados apontam questões sobre se é o resveratrol, o álcool ou uma combinação de ingredientes (incluindo procianidinas ) no vinho tinto, que respondem por seus benefícios à saúde.

Em resumo, não se sabe o suficiente sobre a eficácia clínica e a toxicidade potencial do resveratrol como suplemento ou quais são os benefícios dietéticos da ingestão diária de vinho tinto a fim de se determinar uma dosagem específica.

Toxicidade e contra-indicações. Não há recomendações do FDA ou da União Européia sobre o limite máximo de consumo para evitar a toxicidade do resveratrol. No entanto, o consumo de resveratrol no vinho tinto é limitado pelos efeitos tóxicos do conteúdo alcoólico do vinho. A toxicidade do vinho parece baixa quando consumido em quantidades moderadas, diáriamente, por volta de duas porções de 4-oz para homens e uma de 4-oz para as mulheres.

Por causa da propriedade de antiagregante plaquetário, os pacientes que tomam medicamentos anticoagulantes e antiagregantes plaquetários ou que usam as ervas que têm o potencial para aumentar o risco de sangramento, como o alho, gengibre, gingko, ginseng, trevo vermelho e açafrão, devem ser cautelosos no seu consumo de resveratrol. Além disso, o resveratrol tem sido relatado aumentar a sensibilidade à insulina, e deve ser usado com precaução em doentes que tomam medicamentos antidiabéticos. Embora o resveratrol seja um fitoestrógeno fraco, ele tem atividade agonista e antagonista do estrogênio, e sua utilização não é recomendada em mulheres com câncer estrogênio-dependente.

Em resumo, não se sabe o suficiente sobre a eficácia clínica ou toxicidade potencial do resveratrol, seja como um complemento ou como um componente do vinho tinto, para recomendar dosagens específicas.


Resolução do caso

Apesar da intensa e recente mídia e o interesse do consumidor no resveratrol como um suplemento para a "longevidade" com base nos estudos com células animais, os ensaios clínicos definitivos em humanos que apoiem seus benefícios de proteção (a curto ou longo prazo), contra a doença de Alzheimer, doenças cardiovasculares e câncer estão faltando. Todavia, alguns estudos estão atualmente em andamento e mais resultados baseados em dados clínicos sobre a eficácia do reservatrol na doença de Alzheimer e na prevenção do câncer são esperados no futuro. Estudos nutricionais em humanos têm fornecido mais dados sobre os benefícios à saúde relacionados ao consumo de vinho tinto em relação aos suplementos com resveratrol. Entanto, é necessário cautela na interpretação dos dados sobre o consumo de vinho, porque há danos significativos associados com os riscos do consumo excessivo de álcool que pode impedir a recomendação do consumo de vinho tinto como um meio de prevenção primária das doenças cardiovasculares. Além disso, a evidência sobre a eficácia de doses profiláticas de resveratrol do vinho não está disponível.

Para o Sr. X, que já consome quantidades moderadas de vinho diariamente como parte de uma dieta saudável, é prudente para o seu médico aconselhá-lo a manter um padrão de moderação no consumo de vinho e selecionar o vinho tinto mais do que o vinho branco . Pode valer a pena recomendar que o Sr. X limite seu consumo de resveratrol do vinho até que a evidência clínica esteja disponível para apoiar os benefícios da suplementação. Além disso, nenhuma recomendação pode ser feita para uma dose específica, especialmente em função das taxas variáveis de absorção do reservatrol e as propriedades farmacocinéticas. Contudo, o Sr. X não tem uma contra-indicação formal para o uso de suplementos de resveratrol, e seu uso pode ser considerado, desde que ele não o veja como uma substituição de um estilo de vida saudável.

Seu médico deveria recomendar que ele mantivesse um padrão de dieta mediterrânica, rica em legumes, verduras, frutas, nozes e óleos monoinsaturados, como o azeite, e pobre em carnes vermelhas e gorduras saturadas. Para maximizar a sua ingestão de resveratrol, o médico pode também aconselhá-lo a consumir frutas (tais como uvas vermelhas, amoras e mirtilos com pele), sucos (como o suco de uva), e nozes (amendoins) - todos eles contendo resveratrol - além de outras opções dentro desses grupos de alimentos. Além de seguir uma dieta saudável, seu médico deve incentivá-lo a manter tanto um índice de massa corporal normal quanto um nível moderado de exercícios. Estratégias de prevenção primária, que são conhecidos por melhorar os resultados da saúde, tais como a colonoscopia de rastreio e o controle dos lipídios, devem ser seguidas neste paciente de acordo com as orientações práticas.


Próximo artigo: Disfunção erétil e doenças cardiovasculares (13/12/2009)

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